Ju's Reads

Papo de mulher

Sororidade pra mim, sempre foi sobre acolher. Sobre entender que a vida da outra não precisa ser igual à minha pra ser válida. Mas às vezes eu me pergunto: a que ponto chegamos, quando uma mulher adulta, bem de vida, decide julgar outra mulher por simplesmente não querer ser mãe? - esse texto é um desabafo e foi uma conversa que tive com minhas amigas sobre nossas sogras e ex-sogras - pode conter gatilho para pessoas sensíveis no assunto, ok? Nós escutamos frases que se repetem como um disco arranhado: Você não é mãe, você não entende.”, Quando você for mãe, você vai entender.” Mas… e se a gente não quiser ser mãe? E se a gente não puder ser mãe? E se esse “quando” nunca chegar? Parece que existe um roteiro pronto para a vida feminina mesmo, e sair dele incomoda. Como se a maternidade fosse um carimbo obrigatório de maturidade, empatia ou amor. Como se tudo o que sentimos, pensamos ou vivemos fosse sempre menor porque não passa pelo corpo de uma mãe.

Talvez a gente não queira ser mãe porque temos consciência demais do que isso exige. Talvez tenhamos medo de repetir padrões. Talvez a gente não queira ser uma mãe tóxica como nossas sogras e ex-sogras é, e são. Talvez quiséssemos ser como a nossa mãe. Ou como a nossa avó. Ou talvez - e isso deveria ser suficiente - a gente não queira ser igual a ninguém. E tá tudo bem. 

A maternidade pode ser linda, mas ela não é universal. Ela não é régua moral. Não é título de superioridade emocional. Não autoriza ninguém a diminuir a experiência da outra.

O que me dói não é a escolha alheia, é o julgamento vestido de conselho. É ouvir essas frases a vida inteira com o parceiro ou parceira, como se a nossa existência estivesse sempre em fase de “incompleta”, esperando algo que talvez nunca venha - e que eu talvez nem queira. Sororidade também é isso: respeitar o não. respeitar o silêncio. respeitar a escolha que não se parece com a sua. E não, não é justo ouvir essas frases a vida inteira com o parceiro ou parceira. Justo seria sermos mulheres o bastante, para entender que existem muitas formas de ser inteira - e nem todas passam pela maternidade.

Encerrando aqui o texto, deixando claro que ninguém tem o poder de decidir como você vai ou deve viver a sua vida, se isso acontecer, não é sua vida, é manipulação, é the sims. Terminamos o nosso café de amigas, falando sobre o quanto foi uma conversa necessária, por estarmos casadas e felizes, e mesmo assim a mãe - as sogras e ex-sogras - é a pedra no sapato do casamento feliz. Mas de certa forma foi uma terapia gratuita em grupo que fizemos e saímos renovadas e cientes de que o problema não está na gente, mas nas outras. 

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